UBERLÂNDIA

Drama familiar nos ringues marca o filme “Garra de ferro”

No Texas do início dos anos 1980, os irmãos Von Erich tentam chegar ao topo da luta livre para realizar o sonho do pai. Kevin (Zac Efron), David (Harris Dickinson) e Kerry (Jeremy Allen White) têm força, disciplina e o apoio do público, mas precisam disputar a aprovação do homem que administra suas carreiras. Inspirado na história dessa família, “Garra de Ferro” (2023), escrito e dirigido por Sean Durkin, acompanha o esforço dos rapazes para vencer nos ringues enquanto preservam o carinho que sentem uns pelos outros.

A pressão paterna e a hierarquia familiar

O pai, Fritz Von Erich (Holt McCallany), foi lutador e agora promove os combates dos filhos. Ele quer que um deles conquiste o título mundial que faltou à sua carreira. O problema está no preço dessa ambição. Dentro de casa, Fritz classifica os meninos por preferência e avisa que a ordem pode mudar. A fala tem a casualidade de um comentário durante o café da manhã, embora transforme o afeto paterno em prêmio por desempenho. Kevin aceita essa cobrança com uma obediência que chega a causar desconforto. Treina, luta e suporta as exigências porque deseja orgulhar o pai. Efron dá ao personagem uma timidez que contrasta com seu corpo musculoso. Diante dos adversários, ele sabe o que fazer. Quando precisa falar sobre os próprios sentimentos, parece não ter recebido instrução alguma.

Diferentes caminhos e personalidades no clã

Essa diferença sustenta a melhor atuação do longa. Efron preserva a doçura de Kevin sem torná-lo ingênuo a ponto de perder credibilidade. O rapaz reconhece o talento dos irmãos, torce por eles e deseja participar de suas conquistas. Também quer ser o escolhido por Fritz. Conviver com esses desejos exige um esfuerzo que o treinamento físico não resolve. David, por sua vez, tem facilidade para falar e provocar os oponentes diante das câmeras. Na luta livre profissional, conquistar a atenção da plateia faz parte do serviço. Harris Dickinson oferece ao personagem uma desenvoltura que ajuda a explicar seu crescimento nas arenas. Kevin pode se dedicar ao máximo e, ainda assim, assistir ao irmão receber uma oportunidade que esperava para si.

Os desafios de Kerry e a dinâmica dos irmãos

Durkin apresenta os combates sem pressupor que o espectador conheça as regras daquele universo. Há movimentos combinados, personagens cultivados para o público e uma rotina de preparação que exige resistência. A encenação das rivalidades não torna as quedas menos dolorosas. Os atletas precisam convencer a plateia e preservar o corpo com o qual vão trabalhar na apresentação seguinte. Entre um treino e outro, os Von Erich brincam, conversam e procuram a companhia uns dos outros. Esses intervalos têm importância porque dão aos rapazes uma existência além da cobrança paterna. Eles gostam de estar juntos. A competição estimulada por Fritz ameaça uma convivência que poderia ser muito menos penosa. O diretor acerta ao dedicar tempo a essa proximidade. Sem ela, seria difícil compreender por que Kevin insiste tanto em manter todos por perto.

Kerry retorna ao Texas depois que o boicote dos Estados Unidos aos Jogos de Moscou, em 1980, interrompe sua expectativa de disputar a competição no lançamento de disco. Fritz o recebe com outro plano esportivo. A luta livre passa a ocupar o espaço deixado pela ambição olímpica, sem que haja muita disposição para conversar sobre a frustração do filho. Mike (Stanley Simons) tem interesses diferentes. Gosta de música e gostaria de dedicar tempo a ela, uma preferência pouco valorizada naquela casa. Sua presença revela quanto os planos de Fritz deixam de fora. Para receber atenção, os filhos precisam se aproximar do projeto paterno, mesmo quando suas habilidades e vontades apontam para outro caminho. Doris (Maura Tierney), a mãe, tampouco oferece o acolhimento de que os rapazes necessitam. Sua dificuldade em conversar sobre sofrimento ajuda a manter assuntos importantes sem resposta. Pam (Lily James) se aproxima de Kevin com perguntas que escapam aos treinos e aos cinturões, permitindo que o lutador revele outro lado de sua personalidade. “Garra de Ferro” comove porque acompanha homens capazes de suportar uma queda no ringue, mas pouco preparados para pedir colo depois dela.

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