Cerveja sem álcool ganha força em minas e rótulo artesanal fatura ouro
O mercado de bebidas em Minas Gerais passa por uma transformação com o avanço expressivo da produção de cerveja sem álcool. Impulsionada por mudanças nos hábitos de consumo, a categoria deixou de ser um nicho restrito para integrar as estratégias de inovação de marcas locais e de grande porte, consolidando-se como uma das grandes apostas para o período de festas de fim de ano.
Crescimento e reconhecimento internacional
No segmento artesanal, essa tendência já colhe frutos importantes. Um rótulo desenvolvido em Belo Horizonte conquistou recentemente a medalha de ouro no Brasil Beer Cup 2026, considerado o maior concurso de bebidas da América Latina. O evento internacional contou com a participação de 80 jurados vindos de 16 países para avaliar mais de 2 mil rótulos, destacando também outras 16 cervejarias mineiras em diferentes estilos.
Segundo Cristiano Lamengo, representante do Sindicato das Indústrias de Cerveja e Bebidas em geral de Minas Gerais (SindBebidas), investir nesse segmento representa uma oportunidade estratégica para os fabricantes se diferenciarem no mercado.
“O que percebemos em Minas Gerais é que a cerveja sem álcool deixou de ser um produto de nicho e passou a fazer parte das estratégias de inovação e diversificação de algumas cervejarias”, explicou.
Para o especialista, o produto atende diretamente a novas demandas do público jovem: “Ela está associada a diferentes momentos de consumo: moderação, direção segura, atividade física, trabalho e ao interesse crescente por escolhas mais equilibradas” , concluiu.
Mudança de comportamento entre os jovens
A guinada rumo a opções sem álcool reflete dados de pesquisas recentes sobre saúde e consumo no país. O levantamento Álcool e a Saúde dos Brasileiros: Panorama 2025, realizado pela Ipsos-Ipec a pedido do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa), apontou que a abstenção de álcool saltou de 46% para 64% na faixa etária de 18 a 24 anos. Entre jovens de 25 a 34 anos, o índice subiu de 47% para 61%.
De olho nessa parcela do público, a microcervejaria artesanal Mythic Beer, situada no bairro Padre Eustáquio, na Região Oeste de Belo Horizonte, criou a lupulada sem álcool ‘Iara’. Trata-se de uma ‘hop-lager’ de baixa lupulagem, caracterizada por notas cítricas, leveza e apenas 0,5% de ABV (álcool por volume).
“Se a pessoa tomar sem saber que é sem álcool, ela nunca vai adivinhar”, afirmou Valadão, mestre cervejeiro e proprietário da Mythic Beer.
Diante da alta procura, a produção inicial de 250 litros foi ampliada para um segundo lote de 500 litros, com projeção de fabricar mais mil litros até o encerramento do ano.
Expansão na grande escala
No setor industrial de larga escala, o destaque mineiro é a Krug Zero, desenvolvida pela primeira cervejaria artesanal da era moderna no estado. Lançada em agosto de 2025 e livre de glúten, a bebida registrou um salto expressivo nas vendas recentes.
“De julho a setembro deste ano vendemos 78% mais Krug Zero do que no mesmo período de 2025, logo depois do lançamento”, destacou Alexandre Bruzzi, diretor da Krug Bier.
O executivo reconhece que a categoria, antes vista com ceticismo pelo próprio setor, transformou-se em um dos principais pilares comerciais da empresa: “Muita gente quer brindar no fim de ano sem abrir mão da cerveja. Quem vai dirigir e quem prefere não beber álcool… E até nós, da Krug, sempre falávamos: ‘Ah, cerveja sem álcool não faz muito sentido’ . E hoje a gente vê que faz sentido. Inclusive, somos consumidores” , declarou.
Perspectivas para o mercado nacional
Apesar da forte adesão em solo mineiro e de o Anuário da Cerveja do Ministério da Agricultura e Pecuária indicar oscilações no volume total fabricado no país nos últimos anos, especialistas apontam que o movimento é irreversível e alinhado a um comportamento global.
Para o sommelier e mestre cervejeiro Max Falcão, a expansão continuará forte: “Cerveja sem álcool é uma tendência mundial. Como exemplo, no mercado alemão ela já atinge 10% de mercado. Eu conheço várias cervejarias artesanais que estão produzindo cerveja sem álcool e também conheço outras várias que estão em processo de desenvolvimento”, disse.
“As cervejarias artesanais estão se atualizando, modernizando e inovando nesse setor também. Eu acredito que em Minas Gerais esse mercado só tem a crescer”, finalizou.
