Triângulo Mineiro

Técnico jogou fora o primeiro registro da história da Legião Urbana

Numa época em que smartphones e câmeras registram cada instante de qualquer apresentação musical, preservar um show exigia esforço e investimento em rolos de fita caríssimos. Foi justamente nesse cenário de 1982 que o técnico de som José Roberto Cardoso teve em mãos — e acabou descartando — um dos artefatos mais preciosos da música nacional. Ele foi o responsável por gravar o primeiro show em que a Legião Urbana se apresentou com esse nome, realizado em 5 de setembro de 1982, em Patos de Minas, no Triângulo Mineiro.

O festival de 1982 e a tecnologia da época

O evento histórico aconteceu durante o festival Rock no Parque. A estrutura de som foi montada com o apoio de Carlos Alberto Xaulim, produtor que levou equipamentos de Paracatu, somados aos aparelhos da empresa de José Roberto, a Improviso Som, e à iluminação do Centro de Teatro da cidade. Para registrar as apresentações, José Roberto utilizava um gravador de rolo Akai 4000 DB. Como as fitas eram caras, ele recorreu a um colega que conseguiu fitas usadas apenas uma vez.

“Maravilha! Resolvi meu problema. Peguei as fitas, preparei meu AKAI e gravei todos os shows. Entre eles, sem que ninguém imaginasse a importância que aquilo teria no futuro, estava a apresentação de uma banda recém-formada, liderada por um sujeito chamado Renato Russo”, relembrou o técnico sobre o material que continha a transformação da antiga Aborto Elétrico no famoso grupo de Brasília.

A decepção sonora e o descarte histórico

A frustração veio logo depois, ao escutar o material gravado. O áudio estava repleto de ecos, sons sobrepostos e vestígios de gravações antigas que não haviam sido apagadas corretamente, criando uma verdadeira salada sonora.

“Aparentemente, as gravações anteriores não haviam sido apagadas corretamente. Naquela época, não tínhamos recursos para recuperar aquele material. Fiquei tão revoltado que joguei todas as fitas no lixo. Também fiquei muito irritado com o meu amigo, que tinha me arrumado aquelas fitas”, explicou.

“Eu, sem a menor ideia do que estava fazendo, joguei no lixo um pedaço da história do rock brasileiro”, lamentou.

O peso do arrependimento e a tecnologia atual

Anos mais tarde, quando a banda já havia alcançado enorme projeção nacional, o produtor Carlos Alberto Xaulim questionou se José Roberto ainda guardava os registros daquele festival mineiro que também contou com a presença da Plebe Rude. Foi nesse momento que o técnico percebeu a dimensão do que havia eliminado.

“Era um documento histórico raríssimo, feito em uma época em que quase ninguém tinha condições de gravar apresentações ao vivo”, destacou.

Hoje em dia, refletindo sobre o avanço da tecnologia, o técnico acredita que ferramentas modernas de inteligência artificial poderiam ter limpado os ruídos e recuperado o conteúdo. Fica, portanto, uma lição valiosa sobre a memória cultural do país: “Às vezes, o verdadeiro valor não está na qualidade do som, mas na história que ficou registrada nele”.

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