Triângulo Mineiro

Congado em Uberlândia: conheça a história e a hierarquia dos ternos

A tradicional Festa da Congada de Uberlândia celebra 150 anos neste fim de semana, encantando o público com cores, cantos e danças pelas ruas da cidade mineira. Mais do que uma manifestação religiosa e cultural de matriz africana que antecede a própria história urbana local, o evento possui uma estrutura interna rigorosa baseada em hierarquias, funções específicas e saberes passados entre gerações. A festividade é Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil desde 2025.

Diferença entre termos e a mudança de data

O vocábulo congada refere-se especificamente aos festejos, enquanto congado designa o conjunto de expressões religiosas e culturais. Originalmente, a celebração ocorria em novembro, pois os grupos negros não podiam participar da festa promovida por uma irmandade branca em 7 de outubro. Com o fim daquele grupo tradicional, a celebração foi transferida para outubro por iniciativa da comunidade e da igreja local.

Organização dos ternos e hierarquia militar

Os grupos participantes são chamados de ternos, cuja origem remonta a necessidades históricas das comunidades. Em Uberlândia, 24 grupos oficiais e dois convidados participam do evento. O mais antigo é o Terno Sainha, fundado em 1888, enquanto o Moçambique Quilombo dos Palmares, de 2007, é um dos mais recentes. A fundação de um novo grupo exige reconhecimento na trajetória religiosa e aprovação estatutária, lembrando que a filiação de novos coletivos está suspensa até 2042.

Funções e papéis dentro dos grupos

Diferente de outras manifestações populares, os ternos seguem uma hierarquia de estilo militar. Os rei e rainha representam o reinado e a ancestralidade. Os capitães e madrinhas lideram as execuções musicais e transmitem conhecimentos. Há também os caixeiros na percussão, os dançadores ou soldados nas coreografias, os guias e os portadores de estandartes que carregam as bandeiras dos santos de devoção.

O papel do general e a sucessão na festa

O historiador Jeremias Brasileiro atua como general e orador da festa há duas décadas, tendo a responsabilidade de recepcionar as bandeiras na Igreja do Rosário. A transmissão de saberes ocorre pela convivência com os mais velhos, garantindo a preservação da ancestralidade dos reinos do Congo e de Angola.

“Eu não sabia, mas eles estavam me preparando para essa função. Para a transição, temos o Aliester, tataraneto de Teófilo Nascimento, comandante em 1930. Pode ser que o próximo general venha com essa ancestralidade familiar”, disse Jeremias Brasileiro.

A coordenação geral de todas as guardas de Congos, Moçambiques, Catupés, Marujos e Marinheiros fica a cargo da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito (INSRSB), oficializada em 1916 e guardiã da memória dessas comunidades centenárias na região.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *