Fenômenos da internet em minas gerais transformam seguidores em votos
As plataformas digitais revolucionaram a ascensão de uma nova safra de lideranças políticas em Minas Gerais e no Brasil, abrangendo tanto a esquerda quanto a direita. Nomes como o senador e governador eleito Cleitinho Azevedo (Republicanos) e os deputados federais reeleitos Nikolas Ferreira (PL), André Janones (Rede) e Duda Salabert (PSOL), além da novata Ana Elisa (PT) — a mulher mais jovem eleita para a Câmara desde 1994 —, conseguiram converter alcance na internet em sólida força eleitoral e projeção de poder.
O perfil e a trajetória dos principais nomes mineiros
Cada uma dessas figuras construiu caminhos distintos, mas todas compartilham uma enorme capacidade de mobilização online. Cleitinho Azevedo, de 44 anos e natural de Divinópolis, venceu o governo mineiro com 55,4% dos votos válidos, totalizando 6.321.590 votos. Conhecido por sua estética simples e tom de cobrança em vídeos de celular, ele soma 4,9 milhões de seguidores no Instagram e investiu R$ 20.754,76 (2% da verba total) em impulsionamento. Durante o pleito, ele destacou a força de sua base: A estrutura que eu tenho aqui, gente, é vocês, é o povo mineiro. Por isso que eu peço que vocês sentem o dedo e compartilhem esse vídeo para chegar em todo o povo mineiro, porque eu preciso que vocês sejam Cleitinhos nas suas cidades, afirmou.
No campo conservador, Nikolas Ferreira (PL) conquistou a reeleição com 3.118.784 votos, alcançando a maior votação da história para deputado federal no país. Com mais de 25,2 milhões de seguidores no Instagram, ele direcionou R$ 123.000,00 (9,94% do total) para anúncios nas redes. Já pelo lado petista, a jovem Ana Elisa, de 21 anos, surpreendeu ao garantir uma cadeira na Câmara com 524.216 votos, impulsionada por 5,4 milhões de seguidores e um investimento de R$ 28.000,00 (3% do orçamento). Ela avaliou o impacto desse modelo ao participar do programa Estúdio i, na GloboNews: Na minha avaliação, ficou provado para todos aqueles que achavam que rede social não elegia, que rede social elege, e o recado do cansaço, não das pessoas mais velhas, mas do jeito velho de fazer política, disse.
Estratégias de engajamento e gastos de campanha
Outro veterano das plataformas é André Janones (Rede), reeleito com 78.780 votos para seu terceiro mandato consecutivo. Coordenador do canal Exército do Lula, que reunia milhões de participantes, o parlamentar investiu R$ 1.374.934,00 em impulsionamento digital, montante que representou 81% de suas despesas de campanha declaradas ao Tribunal Superior Eleitoral. Por sua vez, Duda Salabert (PSOL) ampliou sua votação para 229.535 votos e destinou R$ 150.000,00 (8,46%) para anúncios, mantendo uma relação direta entre sua visibilidade digital e o crescimento nas urnas.
O impacto da polarização e das tribos digitais
Especialistas ouvidos alertam que, embora as redes aproximem os candidatos dos eleitores, elas também intensificam a divisão social. Para o cientista político Camilo Aggio, professor da UFMG e pesquisador do INCT.DD, e o especialista em marketing Matheus Felipe, as plataformas criam bolhas em torno de identidades e crenças. O nosso grande problema é que estamos perdendo cada vez mais um repertório comum. Quando o adversário se torna um inimigo e as suas ideias se tornam dogmas, temos um grande problema. As dinâmicas das plataformas digitais tendem a reforçar essa lógica tribal, de segregação e de dogmatismo, pontuou Aggio. Matheus complementa que o algoritmo premia a rejeição ao opositor, transformando adversários políticos em inimigos figadais.
A força dos algoritmos e a mudança no consumo de notícias
A priorização de conteúdos provocativos pelos algoritmos alimenta um ciclo onde o engajamento dita o debate público. Nas redes sociais, o que gera indignação e conflito costuma circular mais do que o debate ponderado. O modelo das plataformas recompensa a capacidade de provocar engajamento. Muitas vezes, isso favorece conteúdos polarizadores, porque cada curtida, comentário ou reação é interpretado pelo algoritmo como sinal de interesse, explicou Matheus Felipe.
Essa transformação reflete uma mudança estrutural no comportamento da população. De acordo com o Digital News Report 2025 do Reuters Institute, 54% dos brasileiros utilizam as plataformas digitais como principal meio para obter informações. Paralelamente, os gastos oficiais com impulsionamento eleitoral dispararam desde a regulamentação em 2017, saltando de R$ 23,2 milhões em 2018 para R$ 167,3 milhões em 2026, consolidando a internet como o epicentro definitivo das disputas eleitorais no país.
