Menina de Uberaba viraliza ao mostrar rotina de tarefas domésticas
Uma simples rotina após a aula transformou a estudante Maria Eduarda Emol Augusto, de 11 anos, em um fenômeno nas redes sociais. Moradora de Uberaba, no Triângulo Mineiro, a menina surpreendeu a internet ao compartilhar vídeos em que aparece almoçando, descansando e, na sequência, cumprindo suas obrigações domésticas. A publicação já ultrapassou a marca de 6,5 milhões de visualizações no Instagram.
Organização e autonomia desde cedo
Conhecida como Duda na internet, a jovem mostra aos seguidores que lava a louça do almoço, limpa a sujeira deixada pelos cachorros, arruma o próprio quarto e ainda reserva tempo para estudar antes de aproveitar o restante do dia. Essa dinâmica faz parte do cotidiano da família e começou de forma gradual, respeitando a faixa etária da menina, que também divide espaço com o irmão mais novo, de apenas 3 anos.
“Eu não lembro muito bem quando comecei a fazer tarefas, porque é desde bem pequenininha quando passei a arrumar meus brinquedos. Eu acho normal!”, contou a menina.
A mãe, Bianca de Freitas Emol, explica que a estratégia busca preparar os filhos para o futuro, sem impor as atividades como forma de punição. Na residência, a faxina costuma ser feita com música alta para que o trabalho se torne mais leve. Com o tempo, a autonomia da garota aumentou a ponto de dispensar lembretes constantes para as obrigações diárias.
“O que eu percebi é que antes eu precisava falar ‘filha, é hora de lavar louça, é hora de estudar’. Hoje não precisa, ela mesma sabe a hora e o que deve fazer. Ela sabe que se começar a estudar às 15h, às 16h ela vai parar. Ela mesma faz o cronograma do dia com as tarefas dela”, explicou Bianca.
O fenômeno digital e o debate na web
Desde abril deste ano, Duda ganhou permissão para “brincar de ser blogueira” após receber um celular dos pais. Com o apoio da mãe, ela publica conteúdos sobre moda, cabelos cacheados e seu dia a dia, acumulando quase 42 mil seguidores. Apesar da grande maioria dos comentários ser positiva, a exposição gerou discussões sobre o papel das crianças em casa.
“Esse post viralizou e os comentários que vi, a grande maioria foi positiva. Mas um ou outro fala que ‘criança não tem que lavar louça’, que ‘criança tem é que estudar’. Mas uma coisa não anula a outra. Aqui ela tem a hora de brincar, de estudar e de ajudar nas atividades”, detalhou a mãe.
Para Bianca, o objetivo principal não é apenas ensinar afazeres domésticos, mas transmitir valores para a vida adulta. A frase que resume a filosofia da criação adotada em casa sintetiza bem essa visão:
“A minha intenção não é nem ensinar a fazer as tarefas de casa, que também é muito importante para a vida. O que eu quero passar pra eles é que a vida não é um morango, que também tem responsabilidades. Eu quero que eles cheguem na vida adulta sabendo que tem coisas que eles não gostam tanto, mas eles vão ter que fazer mesmo assim, porque é assim que funciona”.
A visão da psicologia infantil
Especialistas apontam que a participação em atividades do lar é benéfica, desde que alinhada com as capacidades de cada idade e sem sobrecarga. A psicóloga infantojuvenil Reilla Mendes reforça que a construção de hábitos cotidianos deve começar logo na primeira infância.
“Todo ser humano precisa ser funcional e responsável e isso não surge aos 18 anos, precisa ser uma construção diária desde a primeira infância. A criança precisa entender que ela também contribui com o ambiente que ela vive, que ela não faz favor, mas sim o que ela consegue. Bagunçou? Arruma! Tirou? Guarda!”, afirmou a profissional.
A especialista também destaca que o envolvimento dos menores não substitui a responsabilidade principal dos adultos e não deve resultar em punições caso a execução não seja perfeita.
“A responsabilidade integral da casa tem que ser dos adultos, uma criança pode e deve ajudar e contribuir, mas jamais ser penalizada por não executar com perfeição ou não fazer. Quando isso fica claro, a expectativa do adulto diminui. A criança não faz “para ajudar a mãe”, ela faz porque faz parte da educação integral”, pontuou Reilla.
Por fim, a psicóloga ressalta que os ganhos vão muito além da organização da casa, refletindo na formação de cidadãos mais conscientes e empáticos no futuro.
“Além das consequências diretas, como saber cuidar da casa e do espaço que vive, as crianças se tornam mais responsáveis, proativas e, mesmo que possam escolher não fazer quando adultas, valorizam mais o trabalho da outra pessoa. Entendem que manter e organizar o lar exige tempo, dedicação e que podem ser tarefas chatas, mas que precisam ser executadas. Muito mais do que adultos funcionais, os estudos mostram que se tornam, também, adultos mais empáticos”, finalizou.
