Economia e Dinheiro

Presidente da Stellantis admite erro histórico das montadoras com avanço chinês

A indústria automotiva ocidental falhou ao não prever com precisão a rapidez com que a eletrificação ganharia força no mercado global, abrindo espaço para o protagonismo das marcas asiáticas. A avaliação foi feita por Herlander Zola, presidente da Stellantis para a América do Sul, durante entrevista realizada nesta terça-feira (6).

Erros de leitura de mercado e foco na pandemia

O executivo, que comanda marcas como Fiat, Jeep, RAM e Leapmotor na região, destacou que as montadoras tradicionais tinham ciência de que o futuro seria eletrificado, mas erraram nas projeções de tempo. “A palavra correta é erro. A indústria ocidental errou na leitura de mercado daquilo que poderia se estabelecer em termos de velocidade de avanço de algumas tecnologias. Que o caminho seria eletrificado, todo mundo sabia”, pontuou Zola.

Além disso, o dirigente explicou que o período da pandemia fez com que as empresas priorizassem gargalos logísticos, como a escassez de peças e semicondutores, deixando de lado a pesquisa e o desenvolvimento técnico.

Verticalização versus terceirização

Enquanto o Ocidente descentralizou sua cadeia produtiva, os fabricantes da China adotaram o caminho oposto, internalizando etapas cruciais. “O chinês veio basicamente para mostrar que esse caminho estava errado do ponto de vista de competitividade. Eles hoje conseguem obter um nível de competitividade muito maior através da verticalização [da produção].”

Essa dinâmica refletiu-se nos números de vendas no país. “No ano passado, a participação dos chineses no Brasil acumulada foi de 9%. Esse ano está em 17% e, no último mês, a participação dos chineses superou 25%. Então essa aceleração ninguém conseguia prever desse jeito”, acrescentou o presidente da Stellantis, ressaltando ainda que houve um equívoco geral na interpretação do mercado.

Falta de incentivos e o desafio do modelo SKD e CKD

Zola também apontou desvantagens competitivas no cenário brasileiro, citando a ausência de exigências para que montadoras estrangeiras comprem insumos de fornecedores locais de aço, plástico ou autopeças. Nos primeiros oito meses do ano, o Brasil importou 406,7 mil automóveis — alta de 29,8% —, sendo 221 mil vindos da China.

Segundo dados da Anfavea, grande parte da expansão produtiva recente veio de veículos montados pelos sistemas CKD e SKD, nos quais as peças chegam desmontadas. As marcas tradicionais criticam o formato por gerar custos menores de importação e montagem, pressionando os preços dos carros zero km.

“O governo brasileiro precisa identificar qual é o modelo. Porque, se não tiver uma taxa alta [imposto de importação], o modelo de SKD e CKD é mais interessante, sem dúvida alguma”, declarou Zola, pontuando que, se a Stellantis adotasse o mesmo sistema, sua estrutura de 35 mil funcionários cairia drasticamente.

Busca por previsibilidade e corte inteligente de custos

Para o executivo, a palavra-chave para o futuro do setor é a previsibilidade regulatória. “A palavra importante no negócio é essa: previsibilidade. Qual é o modelo que vai se ajustar melhor àquilo que o Brasil quer para ele como indústria? O tema é um tema que precisa ser debatido para que a gente possa entender, sobre a ótica de previsibilidade, qual é o caminho que a gente vai seguir.”

Diante desse cenário, a estratégia da empresa envolve compreender as demandas dos consumidores e implementar uma economia de recursos planejada. “A redução de custo burra é aquela que tira o conteúdo do carro. A redução de custo inteligente é aquela que é planejada, é pensada, desenvolvida sobre o ponto de vista técnico, desenvolvida sobre o ponto de vista de design, desenvolvida para que você consiga melhorar o seu custo sem degradar valor do cliente. E essa é a busca diária”, concluiu.

“Todos os caminhos que a gente tá trilhando agora nos levam basicamente a tentar neutralizar as vantagens que a gente enxerga hoje em concorrentes que já oferecem soluções 100% elétricas, PHEV [híbridos plug-in] e HEV [híbridos plenos] que a gente ainda não tem em algumas marcas”, finalizou o presidente da montadora.

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