Povos da Amazônia temem avanço eleitoral de Flávio Bolsonaro e risco ambiental
Na Amazônia brasileira, os povos indígenas veem com preocupação a ascensão ao poder do candidato Flávio Bolsonaro (PL), que promete seguir os passos de seu pai, Jair Bolsonaro, cujo mandato acelerou a destruição da maior floresta tropical do planeta. O senador superou Lula por dois pontos percentuais no primeiro turno, realizado em 4 de outubro, e desponta como favorito para o segundo turno marcado para o dia 25 de outubro.
O legado de Jair Bolsonaro e a promessa de continuidade
Entre 2019 e 2022, Jair Bolsonaro governou o país com a maior biodiversidade do mundo em um período marcado por recordes de desmatamento na Amazônia e por um retrocesso nos direitos dos povos originários. Agora, seu filho afirma que sua eventual gestão será um “Bolsonaro 2.0”. Questionado sobre o tema, o senador declarou em campanha que “A maior forma de abordar o tema do meio ambiente foi o que fizemos durante o governo do presidente Bolsonaro”.
Para o candidato, seu pai — atualmente condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado — “lutou” contra uma “agenda ambiental radical”. Além disso, Flávio argumenta que os eventos climáticos extremos, atribuídos por cientistas ao aquecimento global causado pela atividade humana, tratam-se apenas de fenômenos “cíclicos”.
Conflitos por terra e a reação das comunidades
Assim como seu pai, Flávio conta com o respaldo de grandes produtores rurais e pecuaristas, setores que mantêm conflitos históricos por terras com comunidades indígenas na região amazônica. Vale destacar que aliados do senador foram eleitos em outubro para comandar sete dos nove estados que integram a Amazônia legal.
O nome Bolsonaro “significa, sobretudo, medo”, “significa tudo o que é de ruim para a gente”, diz à AFP Inara Waty, líder do povo Sateré-Mawé na cidade amazônica de Manaus. Ela acrescenta, com os olhos cheios de lágrimas ao recordar o governo do ex-presidente: “Não tenho palavras”. Para a liderança, a disputa atual representa uma “questão de vida”, pois enquanto o agronegócio busca espaço para plantações e gado, as etnias clamam por territórios para sobreviver e preservar a natureza.
A tensão histórica e os alertas de especialistas
Em meio ao cenário eleitoral, mulheres da etnia yanomami divulgaram um vídeo com pinturas corporais para repudiar o candidato, apontando sua proximidade com garimpeiros ilegais que provocaram uma grave crise humanitária em suas terras durante o governo passado. Diante disso, questionavam nos registros: “Se a floresta for destruída, como iremos viver?” e “Não queremos que voltem a nos matar!”.
No plano de governo, o candidato propõe tratar o meio ambiente como um “ativo estratégico” e promete zerar o “desmatamento ilegal” até 2029, repetindo uma promessa de seu pai que nunca se concretizou. Contudo, analistas apontam contradições. Essa meta “é incompatível com as políticas ambientais de Bolsonaro”, opina Adriana Ramos, da ONG Instituto Socioambiental. Até o momento, a campanha do senador não respondeu aos questionamentos sobre os detalhes ambientais ou sobre os temores expressos por ambientalistas e indígenas.
Outras vozes experientes na pauta socioambiental também expressam receio com o cenário futuro. Tuxaua Ara, indígena do povo Mura de 45 anos, relembra que a gestão anterior foi marcada por “grilagem e desmatamento”. No mesmo sentido, Suely Araújo, da rede de ONGs Observatório the Clima, recorda que aquela administração representou “uma preocupação diária, uma loucura diária para todos”, período em que a floresta perdeu cerca de 11.600 km² anualmente. Concluindo sobre o pleito atual e o avanço da devastação recente, a especialista alerta: “No governo Jair Bolsonaro isso estava iniciando, essa carreira de destruição, e agora está bem experiente. (…) Essa questão (com Flávio) pode ser até pior” caso ele vença a disputa.
