Minas Gerais

Quem é Lucinho Barreto, pastor condenado a pagar r$ 150 mil por discurso

O pastor Lúcio Barreto Júnior, conhecido nacionalmente como Lucinho Barreto, tornou-se alvo de uma condenação judicial conjunta com a Igreja Batista da Lagoinha no valor de R$ 150 mil. A sanção financeira ocorre após a repercussão de um discurso de cunho discriminatório e de incitação à violência sexual contra meninas e mulheres, tema que ganhou forte repercussão e colocou o líder religioso no centro de um debate jurídico e social sobre limites na pregação.

Trajetória e atuação nas redes sociais

Nascido em Belo Horizonte e com 54 anos de idade, o religioso é bacharel em Teologia Ministerial e mestre em Teologia, tendo direcionado boa parte de sua carreira para a evangelização do público jovem. Atualmente, o líder religioso prega na Lagoinha Alphaville, em São Paulo, templo com capacidade para abrigar cerca de 50 mil pessoas em uma ampla área de 115 mil metros quadrados.

Com uma base de mais de 2,5 milhões de seguidores nas plataformas digitais, ele também construiu carreira literária escrevendo obras voltadas ao público evangélico, a exemplo de “O Manual de sobrevivência para o jovem cristão” e da série “Loucos por Jesus”. O pastor é casado com a também pastora Paty Barreto, com quem tem filhos e netos, e costuma compartilhar estudos bíblicos e reflexões na internet.

Entenda o caso e a decisão judicial

A punição foi definida pela juíza Miriam Vaz Chagas, da 17ª Vara Cível da Comarca de Belo Horizonte, atendendo a uma solicitação do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG). O órgão apontou que o sermão proferido em abril de 2024 continha mensagens sexistas e patriarcais, objetificando o corpo feminino e naturalizando a violação de consentimento.

Durante a pregação voltada a homens com o tema “educação de filhos”, o pastor relatou uma situação envolvendo a própria filha. “Eu peguei minha filha um dia, dei beijo nela, falei que amava ela. Ela passava e eu falava assim: ‘Nossa, que mulherão, ai se eu te pego’. Um dia ela distraiu e eu dei um beijo na boca dela. E eu falei assim: ‘Quando eu encontrar seu namorado, eu vou falar: você é o segundo, eu já beijei'”, disse o pastor.

A magistrada destacou em sua sentença que “as liberdades de expressão e religiosa encontram limites intransponíveis”. O texto da decisão aponta ainda que “a pregação e a difusão de falas que menosprezam a dignidade das mulheres e sexualizam menores atenta frontalmente contra os postulados de igualdade material, proteção contra a violência de gênero e respeito aos direitos fundamentais de meninas e mulheres”.

Retratação pública obrigatória

Além da indenização financeira estipulada em R$ 150 mil, a Justiça determinou que o pastor grave um novo sermão sobre a educação de filhos. Na ocasião, ele deverá focar no dever de combater o ódio e qualquer forma de violência contra crianças e mulheres, além de se retratar explicitamente pelas declarações. A Igreja Batista da Lagoinha também foi responsabilizada operacionalmente pela veiculação da retratação.

Em nota oficial, o advogado Leonardo Girundi, responsável pela defesa, declarou que recebeu “com perplexidade” a sentença. “Ela não retrata o que consta nos autos. As falas do pastor, de poucos segundos, foram retiradas do contexto de uma pregação de mais de 40 minutos. Devido a isto faremos os recursos cabíveis na expectativa de reversão do resultado. Reafirmamos o nosso compromisso com a verdade e na defesa das crianças e mulheres”, afirmou o defensor, acrescentando que o episódio ocorreu em 2011 como uma brincadeira familiar e que investigações anteriores da Polícia Civil haviam sido arquivadas. Cabe recurso da decisão atual.

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